◆
Leitura redentivo-histórica
O salmo e Cristo
A pregação expositiva reformada não para na aplicação moral do texto. Se o salmo promete guarda, a pergunta seguinte é: em que chão essa promessa se firma?
Comece pelo versículo 4. A guarda deixa de ser individual e passa a ser do guarda de Israel. O cuidado pessoal do versículo 3 está ancorado num compromisso de aliança — Deus guarda este peregrino porque guarda este povo. A promessa não repousa sobre a fé do indivíduo, mas sobre a fidelidade de quem se comprometeu.
E há uma inversão que merece cuidado, não efeito retórico. O versículo 6 promete que o sol não ferirá de dia. No Calvário, ao meio-dia — a sexta hora —, trevas cobriram a terra (Mateus 27:45). O versículo 3 promete que os pés não vacilarão; os pés do Filho foram traspassados. Aquele que é o verdadeiro Israel não foi guardado, e é dessa não-guarda que vem a nossa.
Por isso o mesmo verbo reaparece na boca de Jesus: a Septuaginta traduz shamar por phylássō, e é esse verbo que Ele usa em João 17:12 ao dizer que guardou os que lhe foram dados. O Guardador do Salmo 121 tem nome no Novo Testamento.
Uma advertência de método: a leitura cristológica é legítima quando emerge da linha da redenção e do vocabulário do próprio texto — não quando é enxertada por alegoria. As conexões acima se apoiam no verbo hebraico e na sua tradução grega, não em semelhança de imagem.