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Como o salmo se move
Quatro passagens
v. 1
A descida em três degraus
Salmo 1:1 · ARA
Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
O primeiro versículo do Livro dos Salmos é construído sobre uma progressão que se perde na leitura rápida. São três verbos em ordem decrescente de movimento: andar, deter-se, assentar-se. Quem anda ainda está de passagem; quem se detém parou para ouvir; quem se assenta já mora ali.
E os três grupos acompanham a descida. Ímpios, pecadores, escarnecedores — do que ignora Deus ao que erra o alvo, e daí ao que ri da própria ideia de alvo. O escarnecedor não discorda: acha graça.
A construção não descreve uma escolha única, e sim um processo. Ninguém se senta na roda dos escarnecedores de primeira — chega lá andando devagar, parando um pouco mais a cada vez. É por isso que o salmo abre o Saltério: antes de ensinar a orar, ele mostra onde a pessoa está de pé.
v. 3
A árvore transplantada
Salmo 1:3 · ARA
Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido.
A imagem é conhecida, e dois detalhes do hebraico a mudam. O primeiro está no verbo: a palavra traduzida por “plantada” é um particípio passivo que carrega a ideia de transplantar. A árvore não nasceu ali. Foi tirada de um lugar e posta neste.
O segundo está na água. A expressão não descreve um rio natural, e sim canais — os sulcos de irrigação que alguém cavou para levar água até onde ela não chegaria sozinha. A árvore está num pomar, não numa margem selvagem.
Somados, os dois detalhes desfazem a leitura de autossuficiência que a imagem costuma sugerir. A árvore não escolheu o lugar, não cavou o canal e não produziu a água. Foi plantada onde há água porque alguém a plantou ali — e é dessa dependência, não de força própria, que vem o fruto no devido tempo.
Vale notar também o que o versículo não promete. Diz que a folhagem não murcha e que o fruto vem “no devido tempo” — o que pressupõe tempo em que não vem. Não é promessa de colheita permanente, é promessa de raiz.
vv. 4-5
A palha
Salmo 1:4 · ARA
Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.
O contraste é construído para ser desigual, e a desigualdade é o argumento. Contra a árvore, o salmo põe a palha — o resíduo leve que sobra depois da debulha, que existia só enquanto estava presa ao grão.
Repare no que o texto faz com os ímpios em termos de linguagem. Eles não recebem imagem própria: são definidos por negação, “não são assim”. Enquanto o justo é plantado, regado e frutífero, o ímpio é descrito pelo que lhe falta — não tem raiz, não tem lugar, não tem peso.
E a palha não é destruída por uma força especial. Basta o vento comum. Não há catástrofe na imagem, apenas ausência do que prenderia ao chão.
v. 6
Os dois caminhos
Salmo 1:6 · ARA
Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.
O salmo fecha com um paralelismo antitético perfeito — duas metades ligadas por um “mas”, cada uma definindo a outra pelo contraste. É o exemplo de manual da forma, e por isso aparece com frequência quando se explica como funciona a poesia hebraica.
A palavra decisiva é “conhece”. O verbo hebraico não descreve ter informação sobre algo: descreve reconhecer, acompanhar, tomar como seu. Deus não está informado sobre o caminho dos justos — Ele o assume.
E a segunda metade não diz que Deus destrói o caminho dos ímpios. Diz que ele perece. A ruína não é aplicada de fora; é o que acontece a um caminho que ninguém reconhece como seu. A palha não é soprada por um vento especial, e o caminho não é demolido — os dois simplesmente não têm o que os sustente.
Citações da Almeida Revista e Atualizada (ARA) © Sociedade Bíblica do Brasil. Este estudo cita passagens selecionadas — para ler o salmo inteiro, consulte a sua Bíblia.